Pensamentos

A Carta a um Filho Ingrato

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Pensar que um dia tive uma família completa, dinheiro e felicidade, só contribui para aumentar o buraco que hoje carrego no peito. A dor chega a ser tão insuportável que por não ter mais forças, estou contando com a ajuda de um assistente para redigir essas palavras melancólicas.

Qualquer expressão, por mais tocante que seja, será inútil para tentar descrever o estrago que tu causaste na minha humilde vida. Por que me abandonaste aqui? Por que não me dá a chance de desfrutar dos últimos suspiros da velhice ao teu lado?

Tudo isso machuca muito. Meus fios de cabelo branco já não aguentam mais. Faça valer a educação dada por mim e pela sua mãe. Falando nela, minha alma chora de tanta saudade. Foi quando ela se despediu desse mundo que o meu pesadelo começou.

Lembra de como éramos felizes? Não passávamos nenhum aniversário longe um do outro, almoçávamos todos juntos, celebrávamos a Páscoa, o Natal… Se ela não tivesse nos deixado, talvez você não tivesse desistido de mim. A morte é uma inimiga perversa e eu não venci a batalha contra ela. Depois vieram os meus problemas de saúde, de coordenação motora, de memória, me tornei agressivo, chato, amargurado. Reconheço que a convivência comigo se tornou difícil, mas me abandonar foi uma atitude radical.

No início, enfrentei muitos desafios aqui. Eu me sentia frustrado por não ser capaz de tomar uma sopa sem sujar minha roupa, por não conseguir gravar os nomes dos assistentes, por não ter forças para tomar um banho sozinho e o pior de tudo, por voltar a usar fraldas como um bebê.

O tempo passou, meu filho. E como passou… Agora, dê-me a oportunidade de ser livre outra vez. Eu te imploro que venha me buscar e saiba que apesar de tudo que aconteceu você tem o meu perdão.

 

[in:licaodevida.com]

One thought on “A Carta a um Filho Ingrato

  1. A Carta a um Filho Ingrato – Meu Deus, como me comoveu!!! Isso chama-se empatia, se colocar no lugar do outro. Eu não só me coloquei como vivenciei, experimentei essa ingratidão até os dias de hoje. Sempre era você meu filho que estava em primeiro lugar. Você me fez juras de que nunca ia me abandonar, mas eu fui ficando em último lugar.
    A única coisa que me restou foi continuar. Ahhhh e eu continuo. Fiz faculdade aos 50 anos, me formei, trabalhei e hoje aos 59 estou novamente estudando e caminhando. Assim é a vida, não parar no tempo nem no espaço, sentindo pena de si mesma. Sou feliz na minha solidão porque aprendi a me amar cada vez mais e quem se ama, ama também sua própria companhia. Seja feliz do seu jeito meu filho, que eu serei do meu. Deus te abençoe.

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